A proliferação dos dados eletrônicos e físicos tem contribuído para que as corporações busquem soluções de GED e serviu para aquecer o mercado, mas a crise traz uma série de indefinições quanto a performance do setor este ano.
Empurradas pela quase onisciência da web, as corporações tendem a municiar ainda mais a grande rede com informações para diferentes públicos, desde colaboradores até parceiros e clientes. Ao mesmo tempo em que o volume de informações cresce exponencialmente é preciso gerenciar, capturar, dar segurança e administrar o acesso, entre outras atividades associadas aos documentos eletrônicos.Porém, depois de um 2008 extremamente promissor, não se sabe ao certo como o mercado pode reagir até o final deste ano.
No ano passado, o mercado de GED (Gerenciamento Eletrônico de Documentos), Segundo avaliação do Centro Nacional de Desenvolvimento do Gerenciamento da Informação, cresceu na ordem de 30,9%. Mas as perspectivas para 2009, por conta da crise financeira, ainda são controversas: se fala patamares de crescimento menores, iguais ou até mesmo superiores aos alcançados em 2008.
“Sentimos muito a crise, temos um grande volume de clientes do mercado financeiro e agora em junho os negócios retomaram. O volume mensal chegou a ser 15% menor do que tínhamos em outubro do último ano, mas abrimos outras portas. O faturamento em junho voltou ao patamar do junho de 2008 e tivemos uma forte demanda do setor de saúde”, revela Sérgio Souza, diretor geral da Interfile.
O conflito de informações ou mesmo de projeções é um problema recorrente no segmento – não existem números que batem entre pesquisas setoriais e muitas vezes o que existe engloba não apenas GED, mas também outras práticas. Algo que pode ser percebido na pesquisa “Estado da Arte do Mercado de GED, ECM e Tecnologias Correlatas”, divulgada em junho de 2008. Dividido em dois grandes blocos, o estudo contemplou respostas de Fornecedores e também de Usuários.
Retrato incompleto
Na sua conclusão, a pesquisa menciona claramente: “como nem todas as principais empresas fornecedoras responderam à pesquisa, por diversas razões consideradas pelos analistas, acredita-se que o mercado fornecedor seja, na verdade, 80% maior que o aqui declinado”. E revela dificuldade em dados confiáveis quanto aos faturamento bruto dos players, com a conclusão de que o faturamento anual bruto das empresas de CEM, GED e tecnologias correlatas chega a R$ 1,5 bilhão. Ok, mas quanto disso é específico de GED? Ninguém sabe dizer.
É certo que o mercado de GED passou por dois ou três anos de expansão acelerada para se deparar com as dúvidas de 2009. Porém, algumas mudanças foram detectadas. Aqueles projetos que eram eminentemente departamentais passam a ser agora corporativos, o que também explica o aumento de ciclo dos negócios que afetou o primeiro semestre deste ano, envolvido incertezas da crise.
“As empresas perceberam as vantagens de ter os documentos digitalizados e isto envolveu a questão do custo. Mas, agora, a demanda mudou, existe uma necessidade de interpretar e saber melhor o que está em um documento. Isto gerou a necessidade de aprimorar o gerenciamento além da digitalização em si. Começamos a ver uma inteligência maior, com o uso de indexadores”, aponta Souza da Interfile. O executivo revela que a partir do know-how adquirido no setor financeiro a companhia passou a atender outros segmentos.
O que eles querem?
As exigências corporativas ficaram realmente mais abrangentes, a própria circulação de documentos em papel ou mesmo em meios eletrônicos, tanto interna como externa, forçou essa nova realidade. “Até mesmo em atividades e formas de documentos que poderiam ser simples, como um contrato em papel, as coisas se tornam mais complexas. É preciso não apenas copiar e aguardar, é necessário facilitar a sua localização e organizar um workflow em muito casos.Mas, mesmo com essas mudanças, o mercado está longe da maturidade”, argumenta Paulo Theophilo, diretor de marketing da Simpress.
O executivo alerta que existem empresas com problemas tanto de processos como de infraestrutura para absorver da melhor forma um projeto de GED. Uma premissa que também é levantada por Souza, da Interfile, que faz uma ressalva: “o maior problema é em processo, infra-estrutura é uma deficiência fácil e relativamente rápida de se resolver. Algumas empresas ainda criam áreas de GDE departamentais, o que mostra uma visão não estratégica, mas é algo que está mudando”.
Há um ano e meio a Interfile passou a oferece soluções com maior nível de customização, ampliando a base de áreas atendidas para as verticais de seguro, saúde e jurídico. “Trabalhamos no primeiro semestre com algo como 25 milhões de imagens e buscamos projetos mais abrangentes. O cliente começa a entender que não basta digitalizar, é preciso aprimorar a consulta e ter uma visão mais ampla. O segmento vem amadurecendo”, assegura Souza.
A estratégia da Simpress é atuar na base de clientes de outsourcing de impressão, algo como mil empresa, e a partir da prática avançar em processos. “Nossa meta é chegar a 10% dessa base com serviços mais complexos. E quem exibe um processo maduro na terceirização quer avançar mais. Verticalizamos a nossa equipe, com 10 áreas implantadas, com um total de 70 a 80 funcionários, para atender segmentos como setor financeiro, jurídico, alimentos e bebidas, transportes e educação, entre outros”, completa Theophilo.
Futuro em foco
Tecnologicamente falando, o setor vê a modalidade de Cloud Computing como algo a ser incorporado rapidamente nos projetos. “As empresas vão buscar provedores de outsourcing que proporcionem despesas atreladas ao volume e tamanho do negócio, reduzindo investimentos inerentes ao início da implantação de uma nova tecnologia com a aquisição de equipamentos, que agora são disponibilizados em regime de comodato”, garante Paulo Roberto de Alencastro Junior, executivo responsável pelo planejamento e gestão da Acesso Digital.
A empresa desenvolveu o SAFE-DOC, uma solução de digitalização e organização de documentos, que disponibiliza toda a vida documental das corporações para aceso on-line. Para permitir que empresas de todos os portes e segmentos utilizem a solução,o SAFE-DOC é comercializado por meio de mensalidades, evitando o alto investimento inicial por parte dos clientes.
Mas e as perspectivas para este ano e além, existe alguma certeza? Para Theophilo, a Simpress, apenas em GED, deve crescer 10%, com o mercado ficando um pouco abaixo. “Os números do setor ainda são muito confusos, o que percebemos é que o crescimento ainda é voltado para a demanda das grandes corporações, mas um valor de mercado total é algo quase empírico. A crise postergou investimentos no último trimestre de 2008 e no primeiro trimestre de 2009 e convivemos com o tempo de entrada em operação de novos projetos, que demora de três a seis meses. Para 2010 teremos uma perspectiva muito melhor. As condições estão prontas, falta uma melhor cultura e decisão de compra”, alerta.
Já Souza, da Interfile, projeta um crescimento da empresa na ordem de 18 a 20% este ano e para 2010 algo entre 20 a 25%. “Acho que o mercado está amadurecendo, precisamos agora gerar discussões mais conceituais. As perspectivas são interessantes por conta da nossa estratégia de segmentação e ampliação dos serviços nos clientes.GED era algo quase marginal e agora passa a ser algo concreto para muitas corporações, com foco na dinâmica proporcionada pela web”, conclui.
Panoramas Setoriais
Como falamos a pesquisa “Estado da Arte do Mercado de GED, ECM e Tecnologias Correlatas”, de 2008, engloba muito mais que apenas o universo GED. E em sua avaliação os analistas consideraram respostas obtidas a partir de 155 respondentes, o que fez com que o texto sugira a seguinte avaliação: “este estudo deve ser considerado como parcial, em relação à quantidade e tamanho das empresas que atuam nesse mercado”.
Bom, mesmo com todas as dificuldades alguns números podem ser avaliados. Dentre os respondentes, 91 são prestadores de serviço no segmento, 77% prestam consultoria, 71% atuam em softwares, 23% com scanners e 22% com outros serviços. Dos fornecedores de softwares, 84% são de GED, 70% de captação de imagens de documentos, 69% para digitalização/processamento de imagens, 62% para gestão documental e 59% para captação de dados.
Os fornecedores de sistemas de ECM, GED e tecnologias correlatas têm atuação mais expressiva em bancos, área de finanças, seguros, previdência e fundos de pensão, somando 54%. Governos municipal e estadual atingem à marca de 50% nesse quesito, seguido por 47% com atuação no setor saúde, hospitais, clínicas, laboratórios e planos de saúde.
Das empresas pesquisadas, 8% declaram que seu faturamento anual; em reais, está acima de 50milhões. Com faturamento até 500 mil estão 46%, de 500 mil a 1 milhão, 13%. De 1 milhão a 5 milhões estão 17%. Algo como 11% estão na faixa de faturamento de 5 milhões a 20 milhões, e 5% na faixa de 20 milhões e 50 milhões.
|